quarta-feira, 8 de maio de 2013

Aquele da ligação

O único barulho no apartamento era o canto de um grilo que não conseguira por pra fora na última noite. A cabeça cansada de pensar fazia aquele canto parecer mais alto do que era, o que a estava deixando estressada.

- Já não basta os estresses da vida? - pensou em voz alta, fitando os posteres que tinha na parede.

Morar sozinha tinha seus prós e contras. A parte boa era fazer o que queria e andar pelada quando quisesse. A parte ruim era o silêncio, a falta de alguém e a solidão que, há uns dias, resolveu aparecer de mala e cuia. Aquela visita que ninguém quer, tipo parente chato que vem visitar e não sabe a hora de ir embora. 

Entre um gole de vinho e outro de solidão, se pôs a pensar sobre todas as chances que teve de ter companhia. Sobre todas as vezes que não soube definir o que sentia ou quando teve medo de sentir. Como tudo teria sido diferente se ela tivesse feito tal coisa. Pegou o celular e digitou alguns números que os dedos já sabiam de cor. O telefone chamou cinco vezes, já desistia de ligar quando ouviu do outro lado da linha:

- Alô? - suas mãos suavam frio. Há seis meses não ouvia aquela voz. - No momento não estou em casa, deixe seu recado após o sinal. - e agora? O que faria? Deixar recado ou não? - Biiiip...

- Erm, hm, oi Pedro, aqui é a Juliana, eu... - ela queria falar tanta coisa que as palavras se perderam por alguns instantes - eu te liguei pra dizer que eu tô bem. Eu sei que tu talvez não te importe, que eu não fui nada pra ti, que eu fui apenas uma distração para o tédio que é a vida, mas eu quis te lembrar que eu tô aqui, que eu existo e que eu não tô pronta pra seguir em frente. Eu tenho agonia. Agonia de ti por ser um idiota. Agonia da vida por ter te posto no meu caminho. Agonia de mim por ter te deixado entrar na minha vida, na minha casa, em mim! Eu não aguento essa quantidade de vírgulas que o destino tem me feito por na nossa história. Eu preciso de um ponto final. É hora de começar um novo capítulo, seja ele contigo ou não. Eu preciso dizer também que... 

Acabou o tempo da mensagem. Ela discou de novo. Essa foi a primeira vez que Juliana teve coragem de dizer o que estava pensando, ela não pararia ali.

- Oi, sou eu de novo. Continuando... eu preciso dizer que eu sei que eu demorei pra definir o que eu tava sentindo, que eu fui complicada e difícil de lidar, mas eu sou assim, tu sabe... tu até gosta disso, lembra? Eu não consigo acreditar que te perdi, que te deixei escapar, que deixei escapar a coisa mais real que já vivi na vida. Por favor, me dá um sinal de vida, um sim ou um não. Eu preciso me livrar dessa vontade que eu tenho de chorar toda vez que escuto teu nome. Eu preciso ser feliz...

- Alô? Juliana? Tá aí ainda?

O coração parou, bateu, parou, acelerou, subiu e desceu em uma fração de segundos. Ele estava ali ouvindo o tempo todo. Juliana não sabia o que fazer, queria o ponto final na história deles, queria um fechamento, mas tinha muito medo que ele dissesse não. Não era mais fácil dizer que o queria, ao invés de dizer que queria um sim ou um não? Nem ela entendia, nem ela sabia definir. A única coisa que conseguiu fazer foi suspirar bem fundo e dizer:

- Sim. Eu tô aqui... ainda.

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