terça-feira, 26 de março de 2013

4:49


Quatro e quarenta e nove da manhã marcava o relógio. Os olhos cansados de chorar pesavam no rosto, assim como a vida pesava sobre os ombros. Doía, doía muito, mas era preciso aguentar. A música que estava no repetir há dois dias, definia exatamente como a vida estava. O refrão dizia algo assim: “e você nunca saberá o quanto é linda pra mim, mas talvez eu só esteja apaixonado quando você me acordar“, era impossível não se lembrar do último ano e de todas às vezes que tinha acordado do lado dele e quantas vezes tinha amado ele. O cheiro do perfume ainda estava impregnado pela casa, ainda a fazia lembrar-se de momentos que ela queria esquecer. Ela não sabia como viver depois daquilo. Dez maços de cigarro por semana estavam deixando-a com os dentes amarelados, o café ajudava e deixava os olhos arregalados. Não havia alma ali, não mais. Era apenas um corpo tentando sobreviver. Tentando empurrar mais um dia com a barriga.


Amor era um negócio que ela não conseguia compreender. Como pode amar alguém, dividir intimidades, momentos, horas, choros, risos e depois de um tempo acabar? Como é possível desamar? Como viver sem amar? O vazio a consumia e ela não conseguia achar as respostas. Aquilo estava acabando pouco a pouco com a vontade dela. A vontade de tentar de novo, de viver, de sonhar, de querer.

Ela queria amar de novo, sentir de novo, andar de mãos dadas, ficar abraçada com alguém nos dias frios, dividir cafés, tortas, sexos e histórias. Era difícil. Quem iria querer colar tantos cacos? Qualquer um apenas a jogaria fora e compraria um produto novo, mas a esperança, é como dizem, é a última que morre. Alguém seria a cola. Ao pensar nisso lembrou-se de outra música, que dizia assim: "Você tem cabelos grisalhos agora, mas é ainda uma mulher linda e os anos tem sido bons para nós dois. Nós agora caminhamos devagar, mas ainda temos um ao outro. E a cola do amor está ainda nos mantendo unidos. É disso que eu me lembro, você se lembra?"

Ela queria isso, apenas isso: um amor pra vida toda.

E tinha medo, muito medo, disso não existir mais.

(Músicas citadas: Wake Me Up - Ed Sheeran e Dear Bobbie - Yellowcard)

domingo, 24 de março de 2013

Cansei... ou não.

Eu tenho um defeito muito grande: cansar fácil. Canso fácil das pessoas, do lugar onde moro, da faculdade, entre outras mil coisas. Esse defeito faz com que eu perca muitas oportunidades na vida. Em termos de relacionamentos amorosos então... da mesma maneira que posso querer a pessoa na minha vida "à primeira vista", uma semana depois já cansei, já não quero mais, já quero outra coisa.

Essa ânsia de viver acaba me fazendo esquecer de viver. Esqueço de viver vários momentos na vida por que quero as coisas pra ontem. Acho que é por isso que canso tão fácil, por que eu quero e quero agora, já! 

Além disso crio milhões de expectativas (o que não se faz, caros amigos) e espero que elas concretizem, se elas demorarem muito pra se tornarem reais, eu canso.

Gostaria muito que isso acabasse, que eu viesse a querer tanto algo que eu não cansasse disso, algo que me fizesse querer mais e mais.

Então, vida, vai me surpreender ou não?

sexta-feira, 22 de março de 2013

Sobre mim

Quando eu entrei em depressão, há seis, sete, anos atrás, uma psiquiatra me disse pra escrever toda vez que eu estivesse mal, que isso me acalmaria. Vou tentar essa prática hoje.

Ter história de depressão é uma bagagem muito forte pra levar nas costas, machuca, dói, pesa. Mas o maior problema é que não existem muitas pessoas capazes de ajudar a levar essa bagagem junto. Pouquíssimas pessoas te aceitam com esse problema e isso faz com que a quantidade de amigos que eu tenha seja minúscula. 

Leiam bem: amigos. 

Conhecidos eu tenho muitos, esses que me acham divertida, engraçada, maluca, entre outras coisas. Mas amigos? Que me querem por perto? Ah, isso não fecha uma mão.

Sentir ou ter depressão, não aguentar e ter que chorar, não importando o lugar que esteja, é difícil de lidar. Há quem diga que é FALTA DE LAÇO, mas não se preocupem, eu apanhei muito quando criança. Muito mesmo. Talvez isso reflita também no que sinto atualmente.

Se eu fico com vergonha de publicar este tipo de coisa? Não. Eu parei de ter vergonha disso. Não é vergonhoso ser triste, vergonhoso é esconder a tristeza. É gritar pro mundo que tem a vida perfeita, quando não é verdade. Prefiro sem sincera e escancarar meu jeito, do que fingir ser o que não sou.

Eu só queria que a sensação de ser descartável pras pessoas passasse. Eu só queria me sentir importante pra mais pessoas além da minha família. Me sentir útil no mundo.

Só isso.

terça-feira, 19 de março de 2013

A música mais triste do mundo


"Uma gota no oceano
Uma mudança no tempo
Eu estava rezando
Para que você e eu
Pudéssemos ficar juntos
É como desejar a chuva
Enquanto eu estou no meio do deserto
Mas estou te segurando
Mais perto do que nunca
Porque você é meu paraíso"

Apenas saudade

Há cinco dias não fazia sol. O clima lá fora anunciava uma época de frio e chuva. O sol até que tentava aparecer mas era impedido por uma camada espessa de nuvens, que bloqueavam os raios de chegar até a terra.  Na terra, Ana tentava se concentrar, mas algo não saia da cabeça dela. Um nome? Talvez. Mas não era nisso que ela queria pensar, ela estava agoniada. Era isso. Agonia.

Agonia de tanta coisa. Agonia do passado que voltava a cada momento como um fantasma, tentando assombrar tudo que ela resolvia viver de novo. Ela queria deixar o passado guardado num baú, com vários cadeados, mas ele cismava em sair e vir de encontro a ela, em qualquer esquina, a qualquer momento. Agonia, também, do presente, que de presente não tinha nada. Só se fosse um presente mandado por um inimigo, aí talvez fizesse sentido.

Nesse momento, Ana travou, um nome voltou a martelar na sua cabeça, logo tratou de pensar em outra coisa. Café. Isso. Café. Começou a pensar em como o café amargo refletia na sua atual situação. Situação? Que situação? E o nome voltou a aparecer.

Era inevitável. O passado, o nome, tudo. Nada parecia querer ir embora. "Que saco" ela pensou, fechou tudo que estava fazendo e resolveu sair.

Caminhando pela rua ela avistou o cemitério, logo ali, na esquina de casa. Tentou evitar mas teve que entrar. 

Sentou na frente de uma lápide e permitiu uma lágrima molhar seu rosto.

A agonia não era agonia, era apenas saudade.

(Pra todo mundo que já perdeu alguém)

segunda-feira, 18 de março de 2013

Ainda há esperanças



“Não sei sobre o que escrever” foram as primeiras palavras do novo diário. Ela não tinha ideia de como se sentia, do que queria, do que esperava da vida. Ela apenas queria alguma coisa. A vida andava tão parada que qualquer coisa seria útil. 

Pensou no dia que derrubou café na própria roupa, mas logo desistiu de escrever sobre, nem o diário se interessaria por aquilo.

Fitou o teto do apartamento, algumas aranhas viviam por ali, pensou em escrever sobre as aranhas, logo desistiu também. Não era possível que aranhas, teias e sujeiras estavam mais interessantes que sua própria vida.

Continuou encarando as seis palavras escritas e botou um ponto final. Aquilo tinha que acabar. A vida deveria mudar. A vida, o lugar, as pessoas, a faculdade, tudo. Era hora de mudar de página e ter histórias pra contar, não apenas um sentimento de vazio, um sentimento de nada.

O amanhã teria que ser melhor.

O amanhã vai ser melhor.