Quatro e quarenta e nove da manhã
marcava o relógio. Os olhos cansados de chorar pesavam no rosto, assim como a
vida pesava sobre os ombros. Doía, doía muito, mas era preciso aguentar. A
música que estava no repetir há dois dias, definia exatamente como a vida estava.
O refrão dizia algo assim: “e você nunca saberá o quanto é linda pra mim, mas talvez eu só esteja
apaixonado quando você me acordar“,
era impossível não se lembrar do último ano e de todas às vezes que tinha
acordado do lado dele e quantas vezes tinha amado ele. O cheiro do perfume
ainda estava impregnado pela casa, ainda a fazia lembrar-se de momentos que ela
queria esquecer. Ela não sabia como viver depois daquilo. Dez maços de cigarro
por semana estavam deixando-a com os dentes amarelados, o café ajudava e
deixava os olhos arregalados. Não havia alma ali, não mais. Era apenas um corpo
tentando sobreviver. Tentando empurrar mais um dia com a barriga.
Amor era um negócio que ela não conseguia
compreender. Como pode amar alguém, dividir intimidades, momentos, horas,
choros, risos e depois de um tempo acabar? Como é possível desamar? Como viver
sem amar? O vazio a consumia e ela não conseguia achar as respostas. Aquilo
estava acabando pouco a pouco com a vontade dela. A vontade de tentar de novo,
de viver, de sonhar, de querer.
Ela queria amar de novo, sentir de
novo, andar de mãos dadas, ficar abraçada com alguém nos dias frios, dividir
cafés, tortas, sexos e histórias. Era difícil. Quem iria querer colar tantos
cacos? Qualquer um apenas a jogaria fora e compraria um produto novo, mas a
esperança, é como dizem, é a última que morre. Alguém seria a cola. Ao pensar
nisso lembrou-se de outra música, que dizia assim: "Você
tem cabelos grisalhos agora, mas é ainda uma mulher linda e os anos tem sido
bons para nós dois. Nós agora caminhamos devagar, mas ainda temos um ao outro.
E a cola do amor está ainda nos mantendo unidos. É disso que eu me lembro, você
se lembra?"
Ela
queria isso, apenas isso: um amor pra vida toda.
E
tinha medo, muito medo, disso não existir mais.
(Músicas citadas: Wake Me Up - Ed Sheeran e Dear Bobbie - Yellowcard)

